Jamais pensei em fazer cinema. Seria sonho demais para uma garota criada em uma cidade do interior do Rio de Janeiro – Volta Redonda -, onde havia apenas duas salas de exibição. Para falar a verdade mesmo, a arte cinematográfica não fazia parte da minha vida – nem na infância, nem na adolescência. Fica claro, portanto, que o meu encontro com o cinema tinha tudo para não acontecer. Mas aconteceu. E foi arrebatador.
Iniciei minha carreira de produtora já no Rio, em uma época em que a profissão ainda não havia passado pelo processo de profissionalização. Minha trajetória foi quase intuitiva – passei por diversas funções, de roteirista a diretora, até chegar à produção. Me tornei produtora porque, mesmo enquanto exercia outras funções no set, traços da minha personalidade me levavam a tentar suprir demandas típicas de uma produtora. Não foi uma busca. Foi paixão. E é essa paixão que me faz permanecer na profissão até hoje.
Não se faz cinema no Brasil sem este motor visceral que é a paixão. Basta lembrar que, há três décadas, a atividade audiovisual no Brasil estava praticamente aniquilada. A partir dos anos 2000, graças à pressão da classe cinematográfica, tivemos diversos avanços da regulamentação do setor, com destaque para o Marco Regulatório da TV Paga (Lei 12.485), de 2011, que não só promoveu o aquecimento do mercado brasileiro, mas estimulou novos modelos de negócio entre produtoras independentes e programadoras de TV.
Infelizmente, por mais que os números comprovem a importância da atividade audiovisual no país, a desvalorização da cultura e da classe artística é latente. Já vivíamos novamente um cenário de crise, que agora se agrava com a pandemia mundial da covid-19.
Muitas pessoas não sabem que, segundo dados da ANCINE e Associações do setor, o audiovisual, sozinho, é responsável por um faturamento anual de quase 45 bilhões de reais. Sua participação no PIB brasileiro chega a 0,46% – maior do que a indústria farmacêutica. São 24,5 bilhões de reais adicionados à economia nacional. Para cada real investido em incentivos públicos, retornam no mínimo três reais aos cofres governamentais das três esferas. Com taxa média de crescimento anual de 8,8%, é um dos setores que mais cresce no país e é responsável pelo emprego de cerca de 335 mil pessoas – somando empregos diretos e indiretos. A arrecadação anual do setor em impostos (diretos e indiretos) chega a 3,4 bilhões de reais.
Vivemos um período difícil e, aos colegas de profissão, insisto em dizer que a perseverança e a crença no cinema precisam permanecer intactas. Minha vida se confunde com os filmes que produzi. Amigos, amores, família, tudo caminhou lado a lado com meu crescimento na profissão. Se eu desistisse do cinema, estaria desistindo deles. Não podemos nos deixar deprimir, seja pela falta de apoio governamental, seja por um vírus inesperado. Aliás, durante essa triste pandemia, ficou mais clara ainda para boa parte da população a importância da nossa arte. Milhões de pessoas em suas casas tornaram suas experiências de confinamento e isolamento menos doídas graças ao cinema. Não é pouco. Devemos acreditar que, cada vez mais, teremos mais aliados do que detratores. E com eles, mais suporte. Só assim reafirmaremos a força do cinema brasileiro no mercado mundial.