A quarentena nos reserva um olhar para dentro. Em um momento dramático, além da necessidade de isolamento em um Brasil que se torna o segundo país do mundo em número de casos de Covid19 – com mais de 350 mil infectados e mais de 22 mil mortos -, somos obrigados a nos reinventar. O setor do audiovisual e entretenimento é um dos mais impactados desde o começo da pandemia. Foi atingido drasticamente tanto na sua distribuição e exibição, quanto na sua produção e viabilidade. Temos, no Brasil e no mundo, o desafio de encontrar novos modelos de negócio, de produção e de entrega para seguir em frente.
A crise é aguda e devastadora. De Hollywood, passando pela Europa e Ásia, aos países emergentes. No audiovisual nacional, não é diferente. Possivelmente é pior, pelo agravamento da crise que já enfrentávamos. Sabemos que o audiovisual brasileiro já vinha se debatendo há pelo menos dois anos, por uma crise política e pela busca por um modelo que equilibrasse a relação entre investimento e retorno para o setor.
A gravidade do que ocorre em 2020 exige um aprofundamento do debate. À discussão sobre os necessários subsídios ao setor – o que existe no mundo inteiro -, devemos agregar uma profunda reflexão. Não podemos contar apenas com subsídio público, é necessário também avançarmos em modelos privados complementares de captação.
O caminho das perguntas é longo. Mais do que a paralisação do parque exibidor, nos defrontamos com a interrupção das produções. Muitas dúvidas nos rondam. Não sabemos quando nem de que forma a retomada ocorrerá. E sabemos que quaisquer planos estabelecidos nesse momento, estão passíveis de mudanças recorrentes.
Encontraremos formas de filmar à distância? O streaming, já consolidado, se fortalecerá ainda mais? O drive-in renascerá ou será passageiro? Como as salas de cinema serão adaptadas ao mundo pós-pandemia? O uso da tecnologia avançada de pós-produção como recurso para mudanças no set de filmagens será decisivo? Como retomaremos a indústria nacional? Como os projetos se viabilizarão? Como consolidar processos de fortalecimento de captações privadas?
São perguntas difíceis de serem respondidas de bate-pronto. Mas o caminho do debate é a alternativa possível. Precisamos olhar para fora, observar e aprender com as experiências dos países que enfrentam a Covid19 há mais tempo. Mas, sobretudo, é hora de olhar para dentro e adaptar as especificidades do mercado local. Temos o desafio de nos enxergar para superar esta crise, seja qual for o tempo da travessia.
Precisamos lembrar diariamente qual é o papel da cultura no Brasil. A questão é relevante nesse momento. Cultura é promoção de identidade. Dá rosto e voz a um país, a um povo, a uma sociedade. Cultura também é economia. É desenvolvimento social. É saúde mental, portanto física também. Essa crise intensifica uma necessidade que não é nova: a cultura brasileira precisa ser tratada como merece, como atividade econômica, social e artística relevantes.
A saúde e a economia são prioridade neste momento de pandemia, que não sabemos até quando se estenderá. Mas temos ao menos uma certeza: nossas mentes em quarentena, nosso desenvolvimento após essa crise, precisam de cultura, que tem papel essencial no resgate de nossa identidade.